Acordei com a chuva que caía La fora, a casa totalmente em silencio, minha prima Sarah dormia tranquilamente ao meu lado e Moira na cama de cima, era muito cedo, pois aos poucos o dia foi amanhecendo. Ouvi passos na cozinha, levantei e fui até a janela, nublado, muito nublado. Com certeza me despedi do sol, esse lugar era quase todo ano de dias nublados, seria apenas mais uma coisa a me adaptar.
Peguei uma roupa na mala, uma calça de moletom e uma das poucas blusas de frio que tinha, as coloquei e fui direto para o banheiro, fiz minha higiene e me deixei guiar pelo cheiro de café, delicioso, que fez meu estômago roncar.
Encontrei meu tio, a beira da pia, muito concentrado, passando café com um coador, que na verdade nunca tinha visto na vida, mesmo sem olhar ele notou minha presença, falou:
-Não acha que é muito cedo para estar de pé? Deveria dormir mais um pouco.
-Não tio, na verdade dormi bastante, sempre acordo cedo por causa da escola, estou acostumada.
Ele se virou, seu olhos encontraram os meus, suas olheiras fundas denunciavam a noite mal dormida, com certeza ele estava mais cansado que eu, falei:
-Pelo visto, está mais cansado que eu se quiser pode deitar mais um pouco, eu faço o café, sei cozinhar, não se preocupe.
-Na verdade, sua tia não dormiu bem à noite, ela está muito triste, e seus primos devem estar chegando logo, eles comem muito, então acho melhor eu preparar as coisas, se quiser pode ajudar.
-O que eu faço?
-Sabe fazer panquecas?
-Sim, com calda de chocolate.
-Ótimo, fique a vontade, eu preparo o resto. As coisas estão nesse armário.
Dirigi-me ao armário, peguei os ingredientes de fui fazer a massa, meu tio fez ovos com bacon, pegou bolo, pão de forma, cortou tomates, colocou frios na mesa, leite, suco de laranja, frutas, não parecia um café da manhã, mas sim um banquete. Não comentei nada, não queria demonstrar meu espanto, mas sinceramente, aquilo lá em casa daria umas três refeições.
Assim que terminei as panquecas ouço a porta sendo aberta e vozes, meus primos David e Matheus entraram, junto com eles outro rapaz que não conhecia, mas parecia o tio Jacob, porém sua pela era café com leite e seus olhos eram verdes. Tinha o mesmo cabelo negro, corpo forte, alto, acho que tanto quanto meu tio e a covinha no queixo.
Os três me olharam ao mesmo tempo, inevitavelmente senti minhas bochechas corarem, David sorriu e me deu um beijo no rosto, falou:
-Bom dia priminha, já acordada tão cedo?
-Sim, é o hábito, por causa da escola. Não gosto muito de ficar na cama.
Olhei para os outros dois, me perdendo nos olhos verdes, me senti aquecida, uma espécie de reconhecimento, parecia que aqueles olhos me chamavam, mas cedo de mais ele desviou seu olhar, falando com meu tio Paul.
-Hum, Tio, a noite foi tranqüila, sem novidades.
Paul me olhou, vendo que não fazia idéia do que eles estavam falando e disse:
-Benjamim, acho que ainda não conhece sua prima Jully, filha de Rebeca, ela chegou ontem à noite, com sua Tia Raquel e seu pai.
-Eu sei, minha mãe me disse, eu estava ocupado, não pude ir ao aeroporto.
Ele me olhou, parecia ter raiva de mim e disse seco e frio:
-Seja bem vinda.
Não sei por que, mas fiquei chateada pela maneira que ele falou comigo, não esperava tanta frieza da parte dele, o que ele pensa que é, senti um ódio dentro de mim, como ele se atreve a falar comigo desse jeito, nunca o vi antes, deve ser um desses filinhos de papai metidos e mimados. Não falei nada pra ele, nem fiz nada. Meus olhos cintilaram de raiva, Matheus notando meu desconforto falou:
-Vamos tomar café, é um pecado deixar tanta comida assim esperando.
Dirigimo-nos a mesa, eu sentei ao lado de meu tio, não olhei mais em sua direção nem falei nada, tinha vontade de chorar, mas não daria esse gostinho a ele. Logo eles engrenaram uma conversa entre eles e fiquei totalmente excluída, levantei coloquei a xícara na pia e falei:
-Tio, pode me explicar onde fica o cemitério?
Eles pararam a conversa na mesma hora, me olharam espantados, inclusive Benjamim, que agora tinha os olhos mais escuros e estava visivelmente tenso, ignorei este detalhe queria ir logo me despedir de minha mãe, olhei pra meu tio que falou:
-Quer ir lá agora, tão cedo, pode esperar uma de suas primas, elas podem te levar.
-Não, quero ir sozinha, preciso me despedir de minha mãe, é particular, se não quiser me explicar eu acho sozinha.
Cruzei os braços no peito, sentindo ainda raiva, pela maneira que Benjamim me tratou, mas fiquei esperando, meu tio suspirou e disse:
-Hei, se acalme. Não sou seu inimigo, é só seguir a praia, vai vê-lo de lá, não tem como errar, vá em direção norte, que você acha.
-Obrigada tio, desculpe.
Saí de casa, pelos fundos, sem me despedir, podia ouvir o barulho do mar, segui a trilha e logo estava na praia. O vento veio forte chicoteando meus cabelos, uma garoa fina caía molhando meu rosto, nem me importei com o frio, pois minha ansiedade em chegar era grande. Após alguns metros avistei o velho e pequeno cemitério, fui a sua direção, fiz a volta e abri o velho portão, podia ver as marcas no chão e logo estava em frente à sepultura de minha, mãe. Na lapide uma foto de minha avó Sarah e uma de meu avô Billy, já gastas pelo tempo, minha avó quase não se via. A terra remexida denunciava o enterro na noite anterior. Agachei-me ao lado do tumulo já com lágrimas correndo, toda a aquela dor voltando com força, meus soluços logo se tornaram audíveis e meu corpo balançava de tão forte que eles vinham.
Depois de um tempo, consegui me acalmar um pouco, tomei fôlego e falei:
-Você não devia ter partido, deveria ter ficado comigo. Posso ter crescido, mas ainda sou sua garotinha, preciso de você. Não podia ter me deixado.
O silencio imperava no lugar, sendo ouvido apenas o barulho do vento e da chuva que agora caía forte. Gritei:
-COMO VOCÊ PODE! SUA EGOISTA! ME DEIXOU AQUI COM ESSA DOR DILACERANTE, EU QUERO MORRER TAMBÉM! ME LEVA JUNTO COM VOCÊ, NÃO ME DEIXE AQUI! AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!
Gritei em plenos pulmões, cai de joelhos, comecei a sentir a inconsciência me tomando, ao mesmo tempo que mãos quentes me agarraram, com o susto me joguei pra longe, vi meu tio Jacob com uma expressão sofrida, encharcado pela chuva, me olhava com pena. Gritei:
-NÃO ME OLHA ASSIM, NÃO PRECISO DE SUA PENA. O QUE FAZ AQUI? ME DEIXA EM PAZ!
-Vou te levar pra casa, você vai ficar doente na chuva, e vai acabar no hospital de novo.
-NÃO, EU NÃO QUERO IR, VOU FICAR AQUI E COM SORTE EU MORRO, ASSIM FICA MAIS FÁCIL, EU NÃO ATRAPALHO NINGUÉM, E TODOS PODEM SEGUIR SUAS VIDAS.
-Você não sabe o que está falando Jully, está fora de controle.
-COMO VOCÊ SABE? NEM ME CONHECE, NUNCA ME VIU NA VIDA, NUNCA SE PREOCUPOU COMIGO OU COM MINHA MÃE, NUNCA FOI NOS VER, NEM QUANDO ELA ESTEVE DOENTE E TEVE QUE FAZER CIRURGIA. ELA SENTIA SUA FALTA, VOCÊ NUNCA SE IMPORTOU.
-Você não sabe o que está falando. Não diga besteiras, eu amava sua mãe, assim como amo Raquel, ela era minha irmã.
-HAHAHAHA, NÃO ME FAÇA RIR TITIO! QUE AMOR É ESSE QUE TE AFASTA, NÃO PROCURA NEM SE INTERESSA. SE DEPENDESSE DE VOCÊ ELA JÁ TERIA MORRIDO ANTES.
-Cale a boca, não foi só você quem perdeu. Não é só você que está sofrendo, não seja egoísta.
-QUEM VOCÊ PENSA QUE É PARA MANDAR EM MIM, MINHA MÃE MORREU, MAS TENHO VONTADE PRÓPRIA, CALE A BOCA VOCÊ E SAIA DAQUI ME DEIXEM SOZINHA.
- Foi você quem pediu por isso.
Ele veio até mim me colocando em cima do ombro e começou a correr, com o movimento rápido fiquei tonta, senti meu sangue indo todo pra minha cabeça não consegui reagir, em poucos minutos ele chegou à varanda de minha tia me colocando no chão e me apoiando para que eu não caísse, quando meus olhos encontraram os seus, não agüentei, ele tinha os olhos iguais aos de minha mãe. Chorei, desesperadamente, compulsivamente. Ele prontamente veio até mim, me segurando com seus braços quentes tentando inutilmente me acalmar.
Minha tia saiu de casa, visivelmente transtornada, nervosa e preocupada, me senti mal por ser a causadora de mais uma dor, pois ela já sofria muito com a morte de minha mãe, falei:
-Desculpe, não queria me alterar tanto, mas meus nervos estão à flor da pele, não queria deixar vocês preocupados eu sinto tanta raiva, tanta dor, eu...
A escuridão me tomou, não vi nem ouvi mais nada, tudo perdeu o sentido, ficou escuro, frio, assustador.







